terça-feira, 29 de julho de 2008

A difícil arte de acordar!

Os dias começavam como na letra daquela música de chico buarque, exceto pelo horário, que na maioria das vezes não era às 06:30 hs, ela se concedia uma hora e vinte minutos a mais, de resto, todo dia era tudo sempre igual. Primeiro um olho, depois o outro, e logo ela já podia enxergar uma claridade tímida entrando pelas frestas da persiana rosa e amassada. Era assim nessa época do ano, horário de verão, chuvas de verão e pouco a pouco o sol ia teimando em aparecer, até que ao meio dia ninguém mais suportava o calor.

Ela já sabia que dali alguns minutos a mãe iria abrir abruptamente a porta e acordá-la do jeito sutil que só ela sabia fazer. Para uma figura baixinha e mion ela tinha uma voz e personalidade bem fortes. Isso a irritava profundamente, começar o dia já irritada a irritava mais ainda, mas sabe como é, pessoas mais velhas, o pai já falecera, e ela fazia um esforço quase sobrehumano para entender que se alguém teria que mudar, seria ela, e literalmente, afinal já contava com 30 anos, e as insistentes incurssões daquela figurinha pela sua intimidade já não cabiam mais.

Bom, lá estava ela: “já são quase oito horas, não vai levantar não!”, era uma segunda feira, que jeito maravilhoso de se começar o dia, quiçá a semana. Ela pensava que se fosse um gato, igual aos que ela tem – dedicaremos um capitulo especial aos gatos – estaria grudada no teto de tamanho susto, idêntica ao garfield nos seus desenhos, sim, porque hoje ela dera sorte e acordara antes da mãe, mas o costume era que a mãe a acordasse, daquele jeitinho, lembram?, e ela podia sentir o coração querer saltar-lhe à boca, seria um resto de dia com dor de cabeça e considerado que o dia estava começando, seria um dia inteirinho com dor de cabeça.

Quase se arrastando e direto para o banheiro, tomar banho, lavar o rosto, escovar os dentes, se maquiar, fazer o penteado, não esquecer do perfume, enxágüe bocal, e, entre uma tarefa e outra, ela podia escutar os miados e arranhões insistentes do leon querendo adentrar o banheiro. Ela não entendia para quê, se todas as vezes ele entrava para no segundo seguinte querer sair, talvez fosse para dar bom dia, ou sei lá, para colocar comida, provavelmente esta última, o fato é que, enquanto ele insistia para que ela abrisse a porta, a outra, a diana, se esparramava no meio do caminho, entre a saída do banheiro e seu quarto, como se fosse um tapete persa, a balançar o rabo que de tão peludo lembrava um espanador.

Meia hora dentro do banheiro e já estava pronta, alguns últimos retoques no cabelo, retirar os últimos pêlos que insistiam bravamente em “morar” na sua blusa marrom de babadinhos, estilo romântico, e finalmente, a troca de badulaques e documentos de uma bolsa para outra. Alguns chamariam de uma bolsa para uma mala, mas, “dane-se”, era assim que ela gostava, além de ser a última tendência, no fundo uma mão na roda para tantas inutilidades que as mulheres conseguem carregar e com certeza ao longo do ano, um problema de coluna a mais para freqüentar o consultório de algum ortopedista.

Ah, a parte do café da manhã! Essa não terá mais do que três linhas, era a hora mais corrida que tinha. Na verdade nem se podia dizer que era um café da manhã, justo a refeição mais importante do dia, como todos dizem. Na sua frente nada mais do que um café preto, um pão preto de centeio ou qualquer outro farelo integral, que as vezes ficava preto e duro, devido ao esquecimento na sanduicheira, e uma banda de mamão, meio murcha, meio passada, mas com certeza gelada por inteiro, ficava com gosto de geladeira, fazer o que, não adiantava convencer sua mãe a não guardá-la na geladeira, foram discussões inúteis, como todas as outras, no máximo lhe renderam uma gastrite, mas nessa eu chego mais para frente.

Cinco minutos, não mais, embora sonhasse em um dia ainda trabalhar meio período e tomar um café da manha decente, desses estilo novela das oito ou comercial de margarina, ah os comerciais de margarina, nas conversas com as amigas viraram sinônimo de vida perfeita, família perfeita, marido, filhos, cachorro e papagaio sempre sorridentes e felizes, e lá ia ela pela porta da sala, o elevador a espera, sempre depois que sua mãe já o tinha chamado (e mtas vezes xingado) minutos antes.

Na garagem estava o carro, a principio um péssimo negócio, vinha de uma troca com a amiga, esta tinha um carro um ano mais velho, mas um carro importado, nossa personagem tinha um carro um ano mais novo, mas um carro nacional, não precisamos nem dizer o resto, o ultimo estava em melhores estados e no fim das contas a diferença paga pela outra não cobriu os custos com o motor, a direção hidráulica, a pintura, fora as inúmeras multas que ela conseguiu após a aquisição desse verdadeiro presente de grego (ou seria de amiga?) que acarretaram na suspensão da sua carteira – uma das resoluções para esse novo ano.

08:30 estava exatos cinco minutos atrasada, o bom de se estar atrasada é que a carona que ela dava estaria no horário certo, logo, ela não precisaria ficar esperando, hj seria a vez da amiga. Mais dez minutos e estaria no estacionamento do trabalho, na verdade eram cinco, mas agora com a carona, tinha que dar uma paradinha no percusso, o que lhe tomava exatamente o dobro do tempo de ida, e lá estaria ela brigando por uma vaga.

A vaga para o carro era uma novela e daqueles dramalhões mexicanos, ela já perdera as contas de quantos arranhões, amassados, perdidos ela já teve com o carro – importado, não esqueçam. Como tinha motorista ruim, pensava! Não conseguem fazer uma curva sem “catar” o bico do pára-choque, da frente, da porta... O fato dela estacionar no meio fio, ou na curva não era desculpa para as barberices dos outros, afinal ela tinha tanto cuidado com os carros alheios, na verdade só não tinha cuidado com o seu, como tudo em sua vida, algo que precisava rever.

To Be Continue ...

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