Gente, dessa vez eu não sou a autora do texto, mas recebi esse artigo do meu irmão, uma pessoa com muita autoridade para escrever sobre esse assunto e resolvi então compartilhá-lo com vocês. Sei que é um texto longo e que o tema política pode parecer enfadonho para a maioria, mas não podemos ignorar o que acontece a nossa volta.
bjs e abçs para todos!
"Obama venceu, Whashington está salva e a civilização branca saúda o redentor.
Contraditório, espetacular, surpreendente enfim ao acompanharmos os noticiosos da grande imprensa, na sua quase totalidade, percebemos como a dissimulação não consegue vencer, aliás, convencer a ninguém sobre a marca registrada do moderníssimo século da tecnologia: o não diálogo, ou melhor, a intolerância maquiada na fórmula de multimídias as mais versáteis possíveis.
Sem entrar no terreno da sustentabilidade logística econômica e política do candidato Democrata, muito menos na intrigante face do partido azul estadunidense, o fato é que o discurso da igualdade de oportunidades, somado ao da América para todos e chegando ao de uma nova era, arrastou a sua simetria no que se espalha mundo a fora.
Existe um enorme abismo, gigantesco hiato e por que não dizer imenso processo de apartheid sócio-cultural-econômico e político o qual se movimenta em hipérbole ascendente. E o mais grave desse sentimento consentido localiza-se em grande parte nas comunidades subjugadas e exploradas nos chamados países industrializados.
A vitória expressiva de Obama traz um complexo cenário no qual a esfinge provavelmente devorará seus admiradores. Aí não se trata de juízo de valores, mas tão somente uma leitura mais ampla das condições históricas que o mundo, seus atores e enredos se estabeleceram no início de século das luzes de tempo real.
A esperança sinalizada na superação do não dialogo, da supremacia racial, do fetichismo civilizatório enfim da agenda da ordem, encontra-se envaida na sua própria expressão. Se por um turno, já se afirma o fim do neoliberalismo, ou das ditaduras dos mercados, de outra não foi sublimado os fundamentos das diferenças ou dos pré-conceitos que motivaram, sustentaram e contribuíram para a coerção e coesão do sistema capitalista globalizado.
Daí, mesmo que queira o novo presidente dos EUA não mudará além do que for a ele consentido. Esse processo se assemelha, em muito, com as relações estabelecidas com a vitória de Lula no Brasil. Significação à parte existe um mito, um signo ou como se diz por aí um o quê de esperança, de sonho, de vontade de mudanças pronunciadas nas urnas do tio Sam.
O professor Jacob Gorender em seu monumental trabalho Escravismo Colonial: modo de produção capitalista tem toda razão em relacionar o particularismo na dominação racial e seus meandros na sustentação do Estado burguês. Muito longe estamos da exaustão dessa análise, pelo contrário ganhou mais relevo nas atuais condições de vida, ou de morte, a qual a imensa população pobre está inserida mundo afora.
Dados recentes da FAO, órgão da ONU, divulgados nesse mês dão conta que mais de um bilhão de seres humanos passam fome diariamente. E que desses 80% estão na África e Ásia. A ressonância dessa dramática situação nos EUA afeiçoa-se etnicamente e culturalmente.
O século da intolerância foi devidamente precedido pelo século da conquista, ou como Houbsbaw afirma o século dos extremos (também apelidou de breve século). A superpotência foi e continuará simbolizando a conveniência da anexação, incorporação e sublimação de obstáculos e povos ao hegemonismo ianque. Esse totem se afirma para além da supremacia bélica e industrial, ele o é fundamentalmente ideológico e cultural.
Em nada diferiu sob o aspecto pragmático o chamado socialismo real, onde uma vasta pesquisa já desenvolvida e por desenvolver trouxe e trará ensinamentos importantes sobre suas limitações e erros, bem como da contribuição de acertos. Mas, esse é um assunto para depois, visto que no momento a atenção do mundo voltasse para o que fará Obama diante da crise de acumulação que os EUA atravessam e os desdobramentos ao nível planetário.
O modo de vida, a maneira de se estabelecer enfim o conceito de civilidade onipresente e onisciente a que tudo pode, ou imagina poder, e em que nada cede foi o ringtone da chamada era global. Retórica, alguns diriam. Todavia, a concepção racista presente nesse movimento se articula com as fundamentações de sua necessidade de existência. O racismo talvez seja a forma mais visível desse insustentável habitat que ordem e seu Estado insistem em levar a efeito.
A camuflagem do modelito impregnou a todos e a todas as nações e povos no transcurso do século passado. Afinal, quem não deseja o conforto, o bem estar e as facilidades propagandeadas via telonas, séries de TVs, vídeos e etc. Atire o primeiro iphone ou GPS quem for capaz de não ter sido seduzido!
Havia um custo, mais do que isto um mecanismo sem precedente na história da humanidade que agia, e age, de forma antropofágica. Não só as muralhas da China se rederam aos avanços protagonizados pela revolução industrial dos séculos XIX para XX, mas as premissas da orquestração de o avanço precisavam, e precisa do sacrifício de alguns.
Segundo dados do FMI, conforme boletim de 28/10/2008 publicado na imprensa brasileira, o PIB dos países industrializados representam cerca de 90% do PIB mundial. Só os EUA lideram na casa de 43,8% dessa fatia. Digamos que para cada cem dólares circulando, e como circula na economia da terra 90 dólares saem e retornam constantemente ao g-7. As estimativas do FED indicam uma volatilização de algo perto de 27,5 trilhões de dólares na economia norte-americana de maio de 2007 para outubro de 2008.
Para termos uma idéia, calcula-se o PIB do Brasíl para 2008 na casa de 3,2 trilhões de reais, difícil dizer hoje em dólares diante das imensas flutuações, mas se considerarmos um referencial de R$2,10 na cotação, a estimativa fica de 1,5 trilhões de dólares.
A magnitude da transferência de riqueza dos países periféricos para os centrais do capitalismo foi uma das incríveis façanhas alcançadas pelas elites centrais em conjunto com as oligarquias regionais dos diversos países chamados de subdesenvolvidos, em desenvolvimento e por fim de emergentes.
É nisso, em grande parte que repousa a complexidade desse movimento no qual não basta apelarmos para explicações de dominação militar, coercitiva e do porrete. Elas explicam, e como explicam, mas não esgotam esse processo que vai ao encontro do instituinte, do sublimado ou ainda do dominado. A valoração e a adaptação foram marcas do que chamei de século da conquista. Foi fundamental a existência da denominada guerra fria. Sem ela, talvez fosse muito emblemático formatar e nivelar padrões tão dispares culturalmente, historicamente e socialmente.
Da Arábia Saudita, das Filipinas, África do sul, Chile entre tantos outros ao longo do transcurso da década de 50 para 90 do século passado, foi homogenizada uma linguagem civilizatória, onde a regulação do Estado exerceu um papel proeminente.
É evidente que ocorreriam, como ocorreram, resistências a esse script. Assim como elas ecoam até o presente. Entretanto, ouve uma afirmação. Ocorreu nesse massacre um embotamento vocacional da liberdade de expressão. Dela ficaram somente as letras, pois a expressão regional e suas diversidades, suas matizes e interacionismos foram submetidos a cartilha da onisciência e onipresença.
Bem, nem tudo é perfeito, melhor tudo tem suas vontades, efetividades e validações. Bem como, o reverso da medalha, nas suas aplicações teve também que se agregar e incorporar situações bem diversas a idealizada.
O assunto é por demais extenso, e instigante.
Voltando a situação concreta da vitória de Obama, o fato é que existem expectativas que somente o tempo vai revelar suas verdadeiras possibilidades. Os compromissos assumidos são claros e caros ao mesmo tempo. Fazer o dever de casa para a superpotência não é mesma coisa que assumir o comando do Palácio do Planalto.
Esperanças existem. Desejos, mais ainda. Agora, é necessário saber que as notas promissórias não são somente as desta crise em curso. Menos ainda dos Democratas. Há muita coisa em jogo nas casas dinásticas da atualidade. Jimi Carter, no meio da década de 70, provou desse gostinho. Tinha-se um Vietnam, recém curadas as feridas do Camboja, Coréia e os movimentos de libertação africanos estavam na roda. A política intervencionista não cessou, não parou, não recuou e muito menos foi afastada da diplomacia militarizada dos EUA.
A Blackwater, um tipo de exército não uniformizado e não patrocinado pelo governo, possue somente nos EUA algo próximo de 450 mil servidores treinados. No Afeganistão e no Iraque é estimada uma força tarefa de mais 120 mil trabalhadores dela. Um dos principais assessores da campanha dos Democratas é o presidente dessa empresa, cogita-se o nome dele para a pasta cobiçada do Departamento de Estado.
De outra sorte, as interlocuções e a cumplicidade da votação tem carne e osso. Esse movimento pode permitir tensionamentos que favoreçam a amplificar as tímidas mudanças que se planeja fazer. Essa vitória propiciará um momento impar. E, talvez colabore no sentido de educação política de muitos setores que de fato desejam mudança da rota em curso. A questão é se a esfinge devorará, ou se re-fundará em novos pré-conceitos, validando a mesma miséria política, cultural, econômica e social?"